mito do mártir Tag

Pergunta feita por uma participante de nossas lives no Facebook sobre o mito do mártir e o sofrimento.

A Grazi fez um comentário: ela observa no dia a dia um tal do mito do mártir: as pessoas não se permitem se livrar do sofrimento, às vezes nem sabem que isso é permitido. Você também tem essa percepção?

Olha, Grazi, tenho. Inclusive comigo. Não são poucos os momentos em que eu me percebo sofrendo e percebo que eu estou um tanto enovelada nesse sofrimento. E que eu acabo construindo um tanto da minha vida em cima dessa situação.

Na verdade o sofrimento… uma outra forma de falar do sofrimento (mito do mártir), que eu acho que faz bastante sentido também, é insatisfação. A palavra dukkha, que na tradição se refere a esse sofrimento, uma das traduções dela é insatisfação.

Insatisfação gerando o Mito do Mártir

E aí eu acho que começa a fazer mais sentido ainda. Então, por exemplo, eu tenho algo que não me traz uma satisfação completa, e aí eu sofro. Ou então eu não tenho algo que eu acredito que possa fazer minha vida ficar maravilhosa, e aí eu sofro. E aí a gente se vê no dia a dia o tempo todo lidando com esse “Ai, como eu queria uma coisa diferente”, “Ai, como eu não quero o que está acontecendo agora”. Esse já é um tipo de sofrimento, e a gente lida o tempo todo com ele.

“Puxa, eu queria trabalhar menos, mas ao mesmo tempo é pelo meu trabalho que eu me realizo, ou que eu tenho dinheiro para fazer algumas coisas que eu quero”, e daí eu fico nessa crise, de “tenho o que eu não quero / não tenho o que eu quero”. Eu acho que esse é um sentimento que todo mundo aqui já deve ter experienciado e que gera a sensação de mito do mártir. Então eu vejo que esse mito do mártir pode acontecer em momentos bem corriqueiros, em coisas bem pequenas, em estruturas bem “micro” da nossa vida, da nossa existência… que é quando a gente sofre simplesmente pelas coisas que estão ali dadas; a gente escolhe olhar para a metade do copo que está vazia.

Olhar para a metade do copo vazia

Este é um exercício bacana que dá para fazer, às vezes a gente propõe nos grupos de 8 semanas: Você faz uma lista de coisas boas, ruins e neutras que você tem na sua vida, ou num dia. Você tira um dia da sua vida e no final desse dia lista o que foi bom, o que foi ruim e o que foi neutro. E aí você presta atenção nos itens que estão ali e na dificuldade que você teve: “Ah, eu só enxerguei coisa boa, mas não enxerguei nada ruim” ou então “Nossa, só apareceu coisa ruim, mas nada bom” ou então “Teve muito bom e muito ruim, mas nada neutro”. E aí a gente pode começar a brincar um pouco com essas categorias do que é bom, do que é ruim e do que é neutro, e perceber que elas não são tão fixas assim.

Brincar com as categorias de bom, ruim e neutro

Por exemplo: “Eu acordei, escovei os dentes, coloquei minha roupa e fui trabalhar, e tudo isso eu coloquei como neutro, porque não é bom nem ruim acordar, escovar os dentes, pôr a roupa e ir trabalhar”… Até passa despercebido; é como se eu nem vivesse aqueles momentos, porque é algo que está tão no piloto automático, né? Eu já assumo aquilo como algo tão… banal. E aí você pode fazer o exercício de brincar um pouco com isso. Então: “Puxa, o fato de eu acordar na minha casa, escovar os meus dentes no banheiro, abrir um guarda-roupa que tem várias roupas, escolher uma e vestir, e depois ainda tomar um café da manhã com suco verde, sem glúten, e depois sair para o meu trabalho”… Esse neutro esconde tanta coisa boa que eu tenho: eu sou saudável, eu consigo me locomover sozinha, eu tenho uma casa, eu tenho roupa para vestir, eu tenho um trabalho e tenho ainda a sorte de estar inscrita no curso de mindfulness, em que uma instrutora me pede para fazer uma lista do que é bom, ruim e neutro na minha vida, e ainda fazer uma reflexão sobre isso. A gente é muito privilegiado, né? Então aí você começa a brincar um pouco com as categorias de bom, ruim e neutro. E talvez, quem sabe, brincar um pouco com esse mito do mártir. Com esse estado mental em que parece que a gente está sempre fazendo mais do que pode ou do que aguenta. Brincar um pouco com isso e perceber que tem uma escolha.

Escolhas

Se você resolveu ajudar alguém ou fazer algum tipo de atividade pensando no bem do outro, e isso está pesando para você, o primeiro passo de autopercepção é reconhecer que existe uma escolha aí. Você é livre para fazer escolhas e você escolheu realizar isso. Se chega um ponto em que essa escolha se torna um peso e começa a ficar pesaroso para você, qual seria então a atitude de compaixão nesse momento? Compaixão que abrange a autocompaixão, né? Qual seria? Qual seria a atitude mais egoica ou egoísta, ou egocentrada? Existe uma resposta pronta? Não, acho que aí cada um tem que ter a honestidade e a coragem também de parar e olhar para sua escolha ou para esse rol de escolhas que a gente faz e que se chama “minha vida”, “meus compromissos”, “minha carreira”, “minha profissão”, seja lá o que for, “minha prática de meditação”, “minha prática de mindfulness”… Ter a coragem de olhar para isso, com honestidade, decidir se quer continuar mantendo as mesmas escolhas ou não. Aí você aumenta ainda o seu rol de escolhas.

O que você acha, Grazi, do que eu falei? Não sei se fez sentido, se eu fui clara… Tem uma uma frase: “A dor não é opcional, mas o sofrimento pode ser”. Então, mesmo diante de situações de sofrimento e perda, o nível de sofrimento, a minha resposta em relação a isso, está atrelada a uma escolha minha. Como eu vou experienciar isso? Como eu vou experimentar? Aonde eu vou dar mais atenção? Vai ser na perda? Nesse sentimento de “Ah, como eu sou um miserável”, ou eu vou dar mais atenção para o fato de que existe um contexto enorme que está acompanhando aquele momento de perda? Esse momento de perda aconteceu num contexto muito amplo e complexo, e tem vários lados, e todos os lados se comunicam… (A Vandreza entrou e daí eu lembrei da complexidade.)

Complexidade

Então todos os lados se comunicam, existem muitas partes… Partes que eu vejo; partes que eu não vejo… Partes que eu consigo reconhecer, outras eu ainda não consegui reconhecer.

Então, dentro desse todo complexo, sim existe uma perda, existe uma morte, existe um sofrimento, mas se nesse momento eu consigo ampliar minha percepção… lembrando que somos milhões, somos bilhões, somos muitos, e que a vida está acontecendo o tempo todo, mesmo quando há mortes, mesmo quando há baixas, a vida continua a acontecer. Um corpo se decompõe e pode alimentar terra – e esse pode ser um ponto de vista que eu olho para a morte. A vida continua a acontecer; ela não para.

A vida continua a acontecer

Os microorganismos que estão na terra não param a sua atividade porque eles ficam muito deprimidos, porque alguém morreu… Eles simplesmente continuam, a vida simplesmente continua a fluir. Mesmo num corpo doente – isso Jon Kabat-Zinn, que é o precursor do mindfulness (algumas pessoas se referem a ele assim), foi ele que sistematizou esse mindfulness secular. O Jon Kabat-Zinn atendia no começo pessoas que tinham graves problemas de saúde, que tinham graves comprometimentos, às vezes pacientes terminais, e ele tinha a compaixão e a clareza de mostrar para essas pessoas que “se você está aqui, vivo, respirando, e ainda pode prestar atenção na sua respiração, existem mais coisas certas do que erradas em você”.

Existem mais coisas certas do que erradas em você

Então mesmo num todo em que existe uma parte que sofre, ou que está doente, há mais coisas certas do que erradas. A vida ainda está acontecendo, está lutando para continuar a acontecer da forma que ela consegue. Então, olha que interessante: de acordo com isso, mesmo algo que é muito ruim, como uma doença, e estaria na lista do “ruim”, de repente pode se transformar. A nossa percepção disso pode se transformar. E mesmo assim, apesar da doença, a gente encontrar motivos para contentamento. Contentamento de estar vivo e estar inserido num contexto que é saudável.